segunda-feira, 28 de abril de 2014

12 músicas para enfrentar a dengue

Estou com dengue. Isso significa que, assim como muitos amigos de Campinas e região, passarei os próximos dias de molho, acompanhado pelas dores e pelo desânimo. Qual o sentido, então, de pensar em músicas para enfrentar a dengue?

 Nunca fui adepto de filosofias transcendentais-místicas-quânticas-holísticas e nem do poder das energias do cosmos. Mas se há uma coisa que realmente interfere no meu humor é a música. Assim, se sua dor de cabeça não está tão forte, recomendo uma pequena lista de músicas para alegrar seus próximos dias. São canções felizes e tranquilas que não vão acabar com os sintomas, mas certamente podem arrancar sorrisos e sensações agradáveis.

1 - Marcelo Jeneci - Pra Sonhar

Nada mais feliz que cenas reais de pessoas se casando, ao som de uma música belíssima.

2 - The Faces - Ooh La La

Letra feliz, melodia feliz e contagiante.

3 - Edu Sereno - Rotina

"Papararararara"

4 - Billie Holiday - Can't Help Lovin' Dat Man

Uma canção suave e romântica, com a sonoridade agradável dos anos 40.

5 - Edward Sharpe and the Magnetic Zeros - River of Love

Vejam essa gravação: o guitarrista tem um chapéu feito de mato. A vocalista chacoalha os braços enquanto canta. Pode haver algo mais feliz que isso?

6 - Citizen Cope - Every Waking Moment

"Every waking moment I'm alive I'm searching for you". Aliás, recomendo tudo desse cara.

7 - Silva - A Visita

Mais um artista da nova geração brasileira que mistura ritmos, estilos e instrumentos diferentes.

8 - Mutantes - Vida de Cachorro

Mutantes são legais, cachorros são legais. Uma música dos Mutantes sobre cachorros é, portanto, essencialmente feliz.

9 - Blind Melon - No Rain

Um dos clipes mais bonitinhos de todos os tempos.

10 - Edith Piaf - Je Ne Veux Pas Travailler

Afinal, quem quer trabalhar com dengue?

11 - John Butler - Losing You

Um belíssimo dueto envolvente e profundo.

12 - The Shire Theme Song - O Senhor dos Anéis

Feche os olhos e imagine-se saltitando pelas colinas do Condado. 


quarta-feira, 23 de abril de 2014

A nova geração do R&B e Soul


Quem procura por R&B e Soul no youtube em 2014 acaba encontrando, em sua maioria, vídeos de artistas de rap e hip hop. Ao longo do século XX, o Rythm & Blues sofreu diversas alterações, de modo que essa designação represente hoje um estilo completamente diferente da sonoridade que se tornou popular nos anos 50 e 60, com grande importância dos músicos negros do sul dos EUA. Neste período, o gênero foi um predecessor do rock n’ roll e mesclava estilos como o soul, o jazz, o blues e a música gospel, tornando-se consagrado nas vozes de artistas como Ray Charles, Etta James e Otis Redding (clique aqui para ver um vídeo que reúne trechos de grandes músicas desse estilo nos anos 60). Deixemos de lado, no entanto, os “rótulos”. Todo gênero musical é híbrido, heterogêneo e engloba diversas naturezas sonoras. Assim, para apreciar o R&B e o Soul, mais importante que uma designação fechada é reconhecer e se deleitar com suas marcas características: trata-se de canções românticas, com letras simples e dramáticas, melodias suaves, melancólicas e sensuais. Os arranjos, de modo geral, trazem os acordes constantes do piano, a marcação precisa da guitarra e o choro do órgão gospel. Refiro-me a esta sonoridade, a estas músicas que ouvimos de olhos fechados e com expressão de sofrimento no rosto. É a este gênero rico e diverso que me refiro quando aponto o surgimento de uma “nova geração”.


Os saudosistas, certamente, dirão que os artistas do século XXI não servem para lustrar os microfones de nomes como Aretha Franklin e Sam Cooke. Entretanto, comparações nostálgicas servem apenas para tirar o brilho de músicos contemporâneos que possuem qualidades inegáveis. Assim, desta chamada “nova geração” Soul, talvez o nome mais popular seja Amy Winehouse. Com suas letras nada ingênuas, Amy chegou ao auge com músicas que mesclavam o pop, o jazz e soul. O francês Ben L’Oncle Soul, depois de surgir com sua versão soul de “Seven Nation Army”, consolidou-se no R&B depois de assinar contrato com a gravadora americana Motown, aquela mesma que gravou com Jackson’s 5, Marvin Gaye e The Temptations nos anos 60, graças a sonoridade vintage de suas canções. Alicia Keys, com sua voz encorpada e músicas românticas acompanhadas pelo piano, representa bem o soul melancólico em sua versão pop dos últimos anos. Já a galesa Duffy, depois de surgir com o hit “Mercy”, despontou no Reino Unido com canções mais lentas e sofridas, como “Warwick Avenue”. Joss Stone, com seu visual “Janis Joplin do século XXI” e sua voz grave e poderosa, é mais uma artista que surgiu com covers de soul music antes de se tornar um sucesso. Por sua vez, o canadense Michael Bublé, no início dos anos 2000, colocou novamente em evidência a sonoridade do R&B ao som das Big Bands de jazz e swing dos anos 40, em uma nova roupagem pop.

Ray Charles, Etta James, Aretha Franklin e Otis Redding:
 nomes consagrados do R&B e do Soul dos anos 60

É perceptível, nesses últimos anos, a tendência de uma retomada de sonoridades nostálgicas, mas com elementos contemporâneos. Paloma Faith, com seu visual extravagante que parece ter saído de um filme de Tim Burton, mescla a voz com timbre grave e característica do soul com sintetizadores, efeitos e batidas eletrônicas. A representante brasileira desta “nova geração” é CéU, que mistura o R&B com a MPB e Bossa Nova. Já o havaiano Bruno Mars, em meio aos inúmeros hits de sucesso mundial, possui canções incríveis com fortíssima influência do R&B, como “If I Knew” e “Gorilla”, com exibições ao vivo invejáveis. A portuguesa Aurea expressa, com a canção “Busy for me”, a essência do R&B dos anos 50: a sensualidade do arranjo, a voz encorpada e a temática simples e melancólica, No clipe, a intérprete aparece aos prantos enquanto canta: “Eu tentei te ligar, mas você não atendeu”. Beyoncé, obviamente, é conhecida por ser uma diva do pop. No entanto, sua caracterização de Etta James, para o filme Cadillac Records, de 2008, trouxe novamente à tona os sucessos da Rainha do Soul, com regravações incríveis. John Mayer, além de suas inegáveis qualidades como guitarrista, mescla o pop e o blues, com a batida característica do soul dos anos 60. Na versão ao vivo de “Gravity”, por exemplo, o americano toca trechos de “I’ve got dreams to remember”, de Otis Redding.
Por fim, nota-se, nessa chamada “nova geração”, uma retomada do R&B e do soul dos anos 50 e 60, tanto no visual quanto na sonoridade melancólica, dramática e sensual. Enquanto nos anos 50 esse estilo era um tanto quanto restrito aos negros dos EUA, hoje se percebe uma diversificação em sua produção. Há também, sem dúvidas, uma nova roupagem pop dos tempos atuais para esse estilo, mas que não tira o brilho das belas canções. Para aqueles que apreciam ou gostariam de conhecer mais desse estilo, deixo aqui uma lista de reprodução com uma seleção das minhas músicas favoritas com essa batida romântica e melancólica, e alguns dos diversos subgêneros contemporâneos.

sexta-feira, 28 de março de 2014

O Cinema Político em Tempos Difíceis

     No dia 1 de abril de 2014, cinquenta anos terão se passado desde que um golpe militar depôs o presidente João Goulart e iniciou um regime militar que durou 21 anos. O período foi manchado por torturas e perseguições a opositores, por censura e autoritarismo. Os meios artísticos buscaram diversas formas metafóricas de se expressar em um momento no qual a produção cultural passava por um crivo censor. O ano de 1968 – que marca as revoltas estudantis iniciadas em Paris e que se espalharam pelo mundo – no Brasil, foi o ano marcado pelo Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso Nacional e permitiu ao presidente, que na época era uma capivara que atendia pelo nome de Costa e Silva, governar por decreto. No ano seguinte, 1969, o cineasta grego Costa-Gavras, conhecido pelo engajamento político e pelo senso crítico apurado, lançava sua obra-prima, um filme que possuía um título composto por uma só letra: Z. Z, o clássico dos thrillers políticos, é um dos filmes mais eloquentes já feitos contra o autoritarismo. Consegue esse efeito sem discursos apelativos, mas com um roteiro preciso e com um posicionamento político sincero e coerente. Não por acaso, Z foi interditado pela censura brasileira por diversos anos. Pensar nisso pode nos levar a uma reflexão interessante sobre o papel da arte em tempos de crise.



     Os últimos momentos de Z, nos quais Costa Gavras mostra, de forma fria e direta, o início da ditadura militar na Grécia, ainda me impressionam. Mais marcante do que eles são as palavras que percorrem a tela ao final do filme. Desfilam diante do espectador coisas proibidas pela ditadura grega, sobre a qual as pessoas em geral sabem muito pouco. A ditadura grega proibiu a sociologia e a filosofia. Proibiu Tolstoi e os Beatles. Proibiu Rolling Stones e Dostoievski. Pérolas culturais de uma época e de outra. Disciplinas que instigam o pensamento crítico. Chegaram ao cúmulo de proibir uma letra do alfabeto. A letra Z. Nessa única letra está todo o simbolismo do filme, sobre o qual não falarei mais para não estragar o sabor da descoberta para aqueles que ainda não assistiram ao filme. 




Não teria sido possível filmar uma denúncia desse tipo na Grécia, que vivia um governo autoritário. Então, Costa Gavras filmou na França, com belos diálogos sendo interpretados por grandes atores franceses como Yves Montand e Jean-Louis Trintignant. No Brasil, como já disse, o filme foi proibido.

Costa Gavras dedicou toda sua carreira ao cinema crítico e político. O cineasta grego ainda está em atividade. Seu último filme foi O Capital, lançado ano passado.

     A história segue a investigação do assassinato de um líder político de esquerda, e  o diretor a conduz com a elegância e a inteligência que andam fazendo falta ultimamente em thrillers de Hollywood. O promotor incorruptível interpretado por Trintignant é responsável por momentos de tensão apenas com palavras, montando uma personagem que surge diante dos olhos do público com um exemplo de funcionário público honesto e comprometido com os interesses da população. Em nenhum momento o promotor se rende aos interesses de pessoas que ocupam posições mais influentes do que a sua, como grupos de políticos e de militares. E o público é convidado a acompanhar essa luta de forças desiguais, sendo tratado com um respeito imenso. Costa Gavras parece apostar na inteligência do público, provocando-o a seguir sua história, suas críticas, seu posicionamento político e histórico. Esse respeito ao espectador é uma das características mais importantes desse gênero de cinema que podemos chamar de “filmes políticos”, de forma um tanto quanto generalizante. A condução inteligente da história e a exposição crítica da trama política é o que faz esse tipo de filmes – logicamente podemos estender essas características a outras mídias, como a literatura e a televisão – serem tão importantes em tempos difíceis. A reflexão e o pensamento crítico são fundamentais ao se atravessar períodos problemáticos.

Jean-Louis Trintignant aponta para um militar corrupto.

     Acho possível dizer que o Brasil passa por momentos difíceis. Na época em que Z foi lançado, nosso país também atravessava momentos de crise. Mesmo não assistindo ao filme, diversos brasileiros sabiam que ele havia sido censurado, o que pode estimular reflexões sobre as razões para essa proibição. Brasileiros que foram ao exterior puderam ver o filme, e refletir de forma ainda mais intensa sobre esse país que proíbe obras que criticam ditaduras. Então, em tempos difíceis, reflexões e tramas políticas são bastante interessantes. Não necessariamente para realizarmos uma reflexão histórica sobre eventos acontecidos, mas também para entendermos nossa própria realidade. No caso específico do Brasil, acho que seria mais chocante escancarar a hipocrisia e a crueldade de nossa sociedade atual do que recuperar eventos políticos passados. Não quero dizer que não se devam produzir filmes – e livros e músicas – sobre o regime militar, sobre a Era Vargas ou sobre o que for, mas sim que precisamos também de filmes – e livros e músicas - de viés político e críticos aos tempos complicados que atravessamos. É necessário falar sobre uma sociedade surreal que acha que participar de programas de distribuição de renda do governo federal é sinônimo de vagabundagem. Ou que afirmam não existir racismo no Brasil. Ou que se utilizam de termos cretinos como “ditadura gay”, “gayzismo”, “feminazis” e outras coisas imbecis do gênero.
            Para citar exemplos de filmes que fizeram isso, e não falar apenas do trabalho do grande Costa Gavras (que fez uma bela carreira, com outras obras políticas como Estado de Sítio e o polêmico Amén): Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakulla, conta de forma extraordinária a pesquisa jornalística que colaborou para o fim do governo de um escroque chamado Richard Nixon. Sidney Lumet, um dos maiores diretores de todos os tempos, comentou de forma instigante a busca desenfreada por audiência em uma rede de televisão, o que leva à produção de sensacionalismo puro e acrítico, em Rede de Intrigas. Chaplin criticou Hitler em plena Segunda Guerra Mundial, com seu O Grande Ditador. Stanley Kubrick ridicularizou a Guerra Fria e a corrida armamentista entre EUA e URSS em Dr. Fantástico. E há o clássico dos clássicos dos filmes políticos: A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, belo relato sobre a luta pela independência da Argélia. Há muitos outros, apenas citei meus favoritos. E olhem que nem entrei no território da ficção científica e das distopias, que nos presentearam com maravilhas como 1984, livro de George Orwell, e a série de jogos Bioshock, uma das melhores histórias que eu já tive o prazer de conhecer, em qualquer mídia.
Alguns podem se perguntar se estamos mesmo atravessando tempos difíceis, ou se essa afirmação é um exagero. Porém, é importante lembrar que vivemos numa época na qual pessoas buscam reeditar a Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade, bradando que um golpe comunista é iminente no Brasil. Vivemos numa época em que uma pesquisa constata que 65% da população acha que mulheres que se vestem de maneira considerada provocante merecem sofrer abusos. Se, ao lermos alguma notícia em um site, pararmos por alguns momentos para nos atentarmos aos comentários, encontraremos absurdos inclassificáveis. Pessoas que incitam o ódio e que parecem se esquecer que, pensando igual ou pensando diferente, vivemos em uma sociedade e devemos conviver uns com os outros. E não há possibilidade de começar a resolver os imensos problemas que nossa sociedade possui caso não pensemos de maneira crítica e consigamos ter uma leitura densa sobre nossa realidade. Caso continuemos a lançar comentários estúpidos pregando a intolerância e o ódio às minorias perderemos totalmente a educação e o senso crítico, e estaremos caminhando para uma sociedade acrítica na qual a maioria da população acha que mulheres sofrem abusos porque querem, e que uma ditadura militar – recuso-me a dizer intervenção, por motivos políticos – resolveria problemas como criminalidade e corrupção. Não resolveria nada, mas sim criaria uma realidade na qual obras de arte políticas seriam interditadas. Z não seria um filme exibido nesse tipo de sociedade. Então, vivemos tempos difíceis. Devemos agir para que não se tornem tempos piores. E, para começar a agir, basta pensar, mas pensar de forma crítica.  

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Devaneios sobre a literatura fantástica

"Porque a crítica se desmancha em elogios a autores como Borges e Casares, mas trata os fenômenos da literatura fantástica da atualidade como escritores bem sucedidos e só? Porque não se escrevem análises mais apuradas do trabalho de Neil Gaiman? Porque só vemos os nomes desses autores nas listas dos mais vendidos, ou em comentários tímidos nos jornais, ou em blogs de fãs? Não há uma resposta definitiva, como não há respostas definitivas para nada, mas posso tentar esboçar uma explicação."



      Um dos filões mais produtivos – e lucrativos – do mercado editorial contemporâneo são as obras de fantasia. Histórias situadas em mundos fantásticos, totalmente descolados da nossa realidade, ou narrativas que misturam nosso mundo com elementos estranhos a ele, dando origem a uma intersecção de universos. Não só na literatura esse tipo de história aparece, mas também em outras mídias como os quadrinhos e os games. Já no cinema, somos inundados por produções que adaptam histórias fantasiosas para as telas, enquanto há poucas produções originais no gênero. Porém, enquanto obras fantasiosas dão um lucro absurdo, e atingem uma popularidade estratosférica, é notável que ainda se sinta falta de um reconhecimento desse tipo de obra pelos círculos considerados mais cultos da nossa sociedade, principalmente pela crítica literária.
As perguntas que desejo abordar aqui, e em parte respondê-las, são as seguintes: existe qualidade literária nessas obras de fantasia?; e porque a resistência de parte da crítica e de leitores mais especializados em abraçar um gênero que diverte milhões de pessoas? Para tornar as coisas mais claras, devo dizer que entendo qualidade literária tanto no sentido estético quando no sentido do conteúdo. Um bom livro, que desponte além da mediocridade de seus pares, no meu entender, deve ser bem escrito, mas também trazer uma densidade na exploração de seus temas, seja no sentido da história seja no das personagens.
A primeira das perguntas é de resposta fácil. Sim, existem qualidades literárias evidentes nas obras de literatura fantástica. Para citar um exemplo recente, temos diversos livros de Neil Gaiman que provam isso. O inglês Gaiman, conhecido também por suas obras no mundo dos quadrinhos, possui um dom incrível para a manipulação da língua e para contar histórias. É capaz de, em poucas frases, tecer comentários sobre a condição humana entremeados com crítica social, poesia e o mais puro nonsense. Há também um dos escritores mais pop do momento, meu gorducho favorito George R. R. Martin, autor das famigeradas Crônicas de Gelo e Fogo, fenômeno cultural mundial, principalmente após terem sido adaptadas pela HBO e dado origem à série Game of Thrones. Martin é conhecido por matar personagens importantes com uma facilidade incrível, causando surpresa e revolta em seu leitor. Mas não podemos nos esquecer da habilidade invejável que o estadunidense possui em criar ambientes fantásticos, em tecer referências históricas, em organizar seus livros de forma a enredar o leitor em uma teia de ganchos narrativos de fazer inveja à melhor das séries de televisão. E suas intrigas palacianas são tão intricadas que parecem fazer referência às peças históricas de Shakespeare. O mundo riquíssimo estabelecido por Martin em suas Crônicas levou a revista Time a compará-lo com o papa da literatura fantástica do século XX, J. R. R. Tolkien, criador da Terra Média, que todos que me lêem devem saber o que é. Logicamente, isso levou a algumas polêmicas com fãs radicais de Tolkien. Eu desejo acrescentar um pouco de pimenta a essa comparação pueril, dizendo que os dois são autores diferentes, que abordam temas diferentes, sendo que a grande semelhança entre eles é a criação de um mundo fantástico, baseado na mitologia europeia. A influência de Tolkien sobre Martin é inegável, mas pensando de forma clara e sensata: o gordinho norte-americano domina a arte de contar histórias de forma muito mais completa do que Tolkien. E não direi mais nada sobre isso. Talvez em outra ocasião.


Neil Gaiman e seu estilo punk rocker


                
George R. R. Martin e sua bonacheirice sádica


Mencionei dois autores contemporâneos, e certamente muitos outros talentosos escritores estão por aí escrevendo boas obras de fantasia, mas não há espaço para listá-los aqui. Antes de partir para meu segundo questionamento, acho importante mencionar autores considerados clássicos que passearam pela literatura fantástica. Fazendo um apanhado bem rápido, podemos citar Oscar Wilde e seu Retrato de Dorian Gray, que utiliza o fantástico para tecer metáforas intrigantes sobre o comportamento humano, e Robert Louis Stevenson e sua obra-prima O Estranho Caso de Dr. Jekkyl e Mr. Hyde, mais conhecida como O Médico e o Monstro, que se utiliza do mesmo recurso. Há ainda os livros clássicos de monstros, como Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram Stoker. Até mesmo o auto intitulado “historiador dos costumes” da França do século XIX, Honoré de Balzac, flertou com o fantástico em contos como Melmoth Apaziguado e em seu belo romance A Pele de Onagro. Goethe, em seu Fausto, usou e abusou de elementos fantásticos, indo da mitologia para a cultura religiosa, e até Shakespeare, o mestre dos mestres, foi o autor de duas lindíssimas peças com conteúdo fantasioso, Sonho de uma Noite de Verão e A Tempestade. Para completar a lista, e citar exemplos mais próximos de nós, olhemos para a Argentina, país vizinho que possui dois dos mais cultuados escritores latino-americanos do século XX: Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Os dois trabalhavam com literatura fantástica.
Agora chego à minha segunda pergunta, e também à conclusão de meu texto. Porque a crítica se desmancha em elogios a autores como Borges e Casares, mas trata os fenômenos da literatura fantástica da atualidade como escritores bem sucedidos e só? Porque não se escrevem análises mais apuradas do trabalho de Neil Gaiman? Porque só vemos os nomes desses autores nas listas dos mais vendidos, ou em comentários tímidos nos jornais, ou em blogs de fãs? Não há uma resposta definitiva, como não há respostas definitivas para nada, mas posso tentar esboçar uma explicação.
Parte da crítica e do público mais especializado está saturada de presenciar o lançamento de livros escritos às pressas, como único objetivo de vender milhares de exemplares e encher os bolsos do autor e da editora. Boa parte desses livros são de má qualidade. Isso gera um preconceito imenso com best-sellers, dividindo, de forma arbitrária, o mercado editorial entre a “literatura séria” e a “literatura de entretenimento”. Livros com elementos fantásticos normalmente agradam a uma boa parcela do público, o que os faz vender muito, o que por sua vez liga o radar do best-seller e aumenta o preconceito contra eles. Dessa forma, boa parte do pessoal que procura por “literatura séria” encara obras de fantasia como um novo Harry Potter (não discutirei as qualidades ou defeitos da série aqui), ou mais um dos mil e quinhentos livros que o Stephen King publica por semestre. Não importam mais as qualidades que possam existir em um livro do King, ou em um Harry Potter, o que fica evidente é a mercantilização da literatura, que dilui conteúdos e temas. Autores não trabalham temáticas mais densas porque existe uma regra – inventada não se sabe por qual idiota – que diz que o público quer se divertir, e que livros esquemáticos e escritos de forma soluçante, como as bombas lançadas por um cidadão chamado Dan Brown, vendem justamente por isso. Não se questiona que o público pode querer algo mais inteligente ou profundo, ou até mesmo qual o motivo que o atrai para livros do Dan Brown. Se a porcaria vende, quer dizer que o público está ávido por porcarias, e, portanto, as editoras desejam que lhe entreguem porcarias, coisas superficiais que são lidas e esquecidas cinco minutos depois. As regras do mercado editorial acabam nivelando tudo por baixo, e colocando no mesmo saco grandes obras de fantasia e obras medíocres ou ruins. Tudo isso faz com o que a crítica acabe prestando mais atenção em livros de temática mais realista, ou em alguma coisa que procure fugir à lógica dessa mediocridade editorial, caindo em um círculo vicioso de preconceito literário.
Voltando ao exemplo dado nos parágrafos anteriores, de escritores fantásticos consagrados, como Borges e Casares: eram escritores que faziam um relativo sucesso, que vendiam bem, mas que nunca foram submetidos de forma tão brutal às fórmulas do que vende ou não vende. Se pensarmos somente no retorno financeiro, a liberdade artística se dissolve, a superficialidade toma conta, e a arte morre. Arte é contestação, é reflexão, não é somente uma forma de passar o tempo. Literatura é arte, portanto, literatura deve promover o pensamento, seja por meio de reflexões profundas ou por meio de boas histórias, que nos instiguem a criatividade e também os limites da nossa realidade. Desejo muito ver um ambiente literário no qual não se encare livros com prejulgamentos, mas que também permita uma liberdade artística total a seus criadores. Seria interessante ver críticos olhando para o Stephen King e reconhecerem que, mesmo com diversos livros estapafúrdios repletos de metáforas toscas do amadurecimento, ele possui momentos ousados e profundos, como nos demonstram algumas das páginas de sua série gigantesca A Torre Negra. Seria também sensacional se a J. K. Rowling pudesse se livrar do estigma do Harry Potter, uma das personagens mais insuportáveis da literatura universal. Seria bom que Dan Brown aprendesse a escrever. Mas, para isso acontecer, o movimento deve partir também da parte do público leitor. Os leitores precisam amadurecer, ler coisas diferentes e desafiadoras, não ficarem presos a somente um gênero, explorarem diversos mundos literários, passearem de Dostoievski a Tolkien. Porém, para terem esse tipo de atitude, precisam parar de agir como crianças choronas pressionando o velhinho bonachão chamado George R. R. Martin, exigindo que ele complete o sexto livro das Crônicas o mais rapidamente possível. Esse tipo de atitude corresponde ao de um bando de consumistas mimados, e não a de pessoas interessadas no trabalho de um talentoso. Eu prefiro esperar alguns anos a mais e ter um belo livro em mãos. Afinal, Tolstoi não escreveu Guerra e Paz em um mês.  


Martin manda um recado aos fãs impacientes

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pensamento profundo e fértil, ou, como Star Trek pode nos ajudar a refletir filosoficamente



            Star Trek é coisa de nerd. Frase até um tanto clichê essa. Mas, reconheço que, de fato, Star Trek é coisa de nerd. Da mesma forma que Battlestar Gallactica e Dr. Who também são. Eu, não por acaso, sou fã das três séries. Isso faz de mim um nerd? Talvez, e não há problema nenhum com isso.
            Antes de prosseguir com o texto, e chegar ao tema central que vou abordar, devo dizer que, quando menciono Star Trek, me refiro às cinco séries de televisão e aos dez filmes produzidos com a franquia. Não me refiro aos filmes mais recentes, dirigidos por J. J Abrams, um dos diretores menos sérios e mais gananciosos do atual cinema estadunidense. Não me refiro nem ao primeiro – e bom – filme sob a batuta de Abrams, nem ao segundo, que colocou um dos melhores atores do mundo interpretando um dos melhores vilões da ficção científica, mas se ocupou 80 por cento do tempo em jogar uma série de explosões na tela, para distrair o público dos horrendos buracos de roteiro que o filme possui.

            Mas chega de diretores descompromissados com a franquia que comandam. Voltemos no tempo e falemos da série clássica de Star Trek. Minha intenção aqui é ressaltar, de forma sucinta, como alguns episódios desse grande clássico da ficção científica abordaram temas filosóficos, sociológicos e históricos, de forma criativa e agradável, abrindo portas para que o público pudesse explorar esses temas após desligar a televisão. Usarei três episódios como exemplo, dois da série clássica e um da Nova Geração, retomada da franquia produzida nos anos 80.



      Primeiramente, lembro-me aqui de um dos episódios mais bem roteirizados em toda a história da série, A Cidade à Beira da Eternidade (The City on the Edge of Forever), componente da primeira temporada da série original. Esse belíssimo episódio coloca a Enterprise (a nave onde as personagens da série viajam pelo espaço) diante de um portal, que possui vontade própria e capacidade de transportar pessoas para diferentes épocas da história. O Capitão Kirk, acompanhado pelo racional Sr. Spock, atravessa o portal, para resgatar seu amigo Dr. McCoy, que foi parar na Nova York dos anos 30. Ao chegar lá, Spock descobre que a presença dessas figuras do futuro na Terra dos anos 30 poderia alterar a história de nosso planeta para sempre. O enredo do episódio se desenrola de forma exemplar, e, próximo ao final, o Capitão Kirk e o público são apresentados para uma das minhas coisas favoritas em Star Trek: dilemas éticos. Não posso contar exatamente qual será o dilema, já que estragaria a história do episódio para aqueles que não o viram. Só adianto que questões filosóficas e históricas excelentes são apresentadas. Uma pessoa pode mudar a história? O bem de um indivíduo deve ser sacrificado para o benefício da maioria? Somos capazes de sacrificar nossos amores pelo bem comum? Responsabilidade, ética, história e outros temas estão presentes nesse episódio marcante. Reflexões filosóficas interessantes podem partir dela, e espero que elas surjam para a maior parte daqueles que assistirem a esses brilhantes cinquenta minutos de televisão.  



            Agora vamos para a terceira temporada da série clássica, com uma bela reflexão sobre os direitos civis, em A Última Batalha (Let That Be Your Last Battlefield). Essa história alegórica coloca dois alienígenas em conflito, enquanto os tripulantes da Enterprise tentam mediar uma luta de séculos que envolve essas duas espécies. As duas possuem o rosto dividido em dois, sendo que um dos lados da face é preto e o outro branco. O detalhe, e o que gera o conflito, é que uma delas possui o branco do lado direito e o preto do lado esquerdo, enquanto a outra tem a face dividida de maneira oposta. O conflito é racial, e essa foi uma das primeiras abordagens pungentes do racismo na televisão norte-americana. Muitos nem perceberam a alegoria, o que evitou medidas restritivas da NBC, canal que exibia a série. As emissoras de TV possuíam mais controle sobre sua programação, podendo sugerir mudanças drásticas em seus programas. Como Star Trek era ficção científica, os chefões da NBC achavam que era fantasia, e mal se atentavam às alegorias relacionadas à luta pelos direitos civis que ocorria nos Estados Unidos nos anos 60. Nesse episódio que comento agora, me é inesquecível a discussão entre os dois alienígenas, quando o Capitão Kirk afirma que eles são iguais. A resposta categórica, proclamada pela espécie que perseguia a outra (existia uma classe social dominante no planeta de origem dos dois) é assustadora: “Lógico que não somos iguais, o meu lado direito é branco”. Não por acaso, o lado direto da espécie que perseguia a outra era branco. Essa e outros tipos de alegoria permitiram que a série comentasse, em plenos anos 60, sobre o racismo, a Guerra do Vietnã, o perigo nuclear, o aumento populacional, entre outros temas. O próprio Martin Luther King se declarava admirador da série, que exibiu o primeiro beijo entre um homem branco e uma mulher negra na história da televisão.



            Para encerrar essa discussão sobre as reflexões a serem estimuladas por Star Trek, trago o exemplo de um episódio emocionante, chamado Darmok, exibido na quinta temporada de A Nova Geração. Essa história de amizade é uma das reflexões mais incríveis sobre a linguagem que eu já vi. Isolado em um planeta hostil, o Capitão Picard encontra-se com um alienígena cuja língua o diplomático comandante da Enterprise não consegue compreender. Mas a necessidade fala mais alto e, para sobreviver, ele precisa aprender a se comunicar com seu companheiro de exílio. Aos poucos, Picard descobre que a etnia desse alienígena não utiliza uma linguagem literal, mas sim uma linguagem metafórica. Em um grande momento do roteiro, essa linguagem é explicada da seguinte maneira: “Eles falam por metáforas, utilizam imagens. Se eles querem falar sobre amor, não dizem a palavra amor, mas sim uma imagem desse sentimento, como Julieta em seu balcão.” O capitão, aos poucos, consegue se comunicar com seu companheiro. A cena em que os dois, à beira de uma fogueira, trocam histórias das respectivas culturas, é de arrancar lágrimas. O episódio não é simplesmente uma belíssima reflexão sobre a riqueza disso que chamamos de linguagem, mas também sobre as histórias que contamos, sobre a amizade e sobre a tolerância. Para nos entendermos uns aos outros, basta nos esforçarmos, escutarmos com atenção. Essa mensagem é maximizada pelo grande trabalho dos dois atores, e homenagens sejam prestados aqui a Patrick Stewart e Paul Winfield. Quem quiser conferir um momento dessas grandes atuações, confira o vídeo: 



            Espero que tenha conseguido dizer o quanto Star Trek pode ser uma bela fonte de reflexões, e também o quanto essa série foi importante para a minha formação. Até a próxima. Enquanto isso: vida longa e próspera!
 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Paul McCartney: o homem das mil vozes


         Ao longo de sua brilhante carreira, Paul McCartney sempre foi reconhecido como um exímio vocalista e elogiado por sua extensão vocal. No entanto, muitos beatlemaníacos não se atentam para uma das mais extraordinárias qualidades de Paul: sua incrível versatilidade vocal. No decorrer de sua trajetória, o britânico demonstrou uma enorme variedade de técnicas e timbres. Assim, não pretendo assinalar aqui seu alcance nos graves e agudos (uma rápida busca no youtube aponta vídeos que exploram essa qualidade; clique aqui e aqui para conferir), mas sua capacidade de se expressar com diferentes colorações e características na voz.  Por isso, como admirador e fã, selecionei alguns trechos de músicas que ilustram essa diversidade e mostram como Paul é o homem das mil vozes. Confira no vídeo abaixo, prestando atenção à voz do ex-Beatle.


          De modo geral, acredito que na memória da maioria das pessoas a voz de Paul McCartney seja suave e doce, como em Yesterday. Essa delicadeza vocal, no entanto, não se restringe a uma fase específica da carreira: em Till There Was You, de 1963, e em Hello, Goodbye, de 1967, uma suavidade semelhante também está presente. Assim, é interessante notar  que as características da voz de Paul não são determinadas por sua idade ou momento da trajetória musical, mas por escolhas técnicas que mais se adequam ao estilo de cada canção. Contrastando com essa voz doce, a agressividade presente nos vocais de Helter Skelter garantiu a identidade barulhenta da música que viria a originar o Heavy Metal. O vocal “rasgado”, característico do drive, é marcante também em canções como Sgt. Peppers e Oh! Darling, principalmente nas notas mais agudas. Na exibição ao vivo de Jet, em 1976, esse recurso é notável e garante o que pode ter sido a mais impressionante apresentação vocal de Paul, com então 34 anos e agudos poderosos e impecáveis. Em Monkberry Moon Delight, o ex-Beatle surpreende sustentando o drive ao longo de toda a música, de modo que muitos fãs se questionam se é realmente ele cantando.
Em relação ao timbre vocal, a maioria das composições de Paul revela uma voz clara e brilhante, com bastante intensidade nas notas agudas, como Hold Me Tight e She Loves You, do início da carreira dos Beatles, e Silly Love Songs, com os Wings. Já nos anos 80, em carreira solo, Coming Up  é cantada com tamanha leveza e brilho que novamente sua voz se torna quase irreconhecível. Por outro lado, canções como Lady Madonna e Let It Be mostram uma voz pesada e aveludada, completamente diferente dos exemplos anteriores. You Never Give Me Your Money, do inesquecível álbum Abbey Road (1969), é por si só uma ilustração da versatilidade vocal de Paul McCartney. Inicialmente, no dueto com John, a voz de Paul é suave e brilhante. No verso que se segue a voz do baixista surge  com um timbre grave e encorpado. O apreciador desavisado, quando escuta a essas canções  pela primeira vez, pode não saber dizer se é Paul ou Ringo cantando.
O que é, sem dúvidas, inconfundível na voz de Paul McCartney é  seu controle sobre os gritos rasgados característicos do rock n’ roll. Nos primeiros anos dos Beatles, fortemente influenciados pelo rockabilly, os poderosos berros de Paul são marcas memoráveis de hits como I Saw Her Standing There, Twist And Shout e Long Tall Sally. Já no fim dos Fab Four, Paul mostra novamente seu controle nos falsetes e drives no inesquecível grito de Hey Jude. Entretanto, o ex-Beatle mostrou também ao longo de toda sua carreira um invejável domínio dos falsetes leves e suaves. Em Mother Nature’s Son e Maybe I’m Amazed os agudos são límpidos e as notas claras e bem colocadas. Em 2002, na exibição de My Love, Paul, com 60 anos e algumas mostras de cansaço devido a idade, surpreende e encanta com falsetes incríveis e voz impecável.

Essas são algumas das mil vozes de Paul McCartney. Sua versatilidade vocal foi, sem dúvidas, algo que contribuiu para o brilhantismo dos Beatles com composições dos mais variados estilos. Espero, por fim, ter feito observações que indiquem possibilidades de ouvir e apreciar a obra de um dos maiores nomes da música no último século.